eu sou uma barata
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tentativa de diário

Quarta-feira, Agosto 27, 2003

mas todos querem de fato essa neutralidade? yo ho?


posted by MARCO DUTRA 02:50
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TRIPULAÇÃO DE ESQUELETOS

stephen king escreveu em uma de suas compilações de contos para tomarmos cuidado, que ali existiam tigres. não sei bem porque diabos os tigres deveriam parecer tão assustadores, mas em PIRATAS DO CARIBE - A MALDIÇÃO DO PÉROLA NEGRA há uma frase parecida: "aqui existem monstros." o mesmo significado, sem a sutileza e as possíveis referências à infância de um morador do maine. há monstros no filme de fato, mas são monstros do bem. são johnny depp e geoffrey rush, piratas humorados (com alguma dose de imortalidade em circulação) e bastante rasos, além de previsíveis. há encanto, porém, na constatação de que o filme dá mais valor ao que possa ter em comum com a "ride" na disneylândia que o inspirou do que ao próprio fio de narrativa que os roteiristas encontraram para justicar a adaptação. os atores são como bonecos - parece que a única função de cada personagem é ser engraçadinho e caricato, além de fofo, o que costuma acontecer com os piratas do cinema em geral. o diretor gore verbinski junta o que há de infantil, espertinho e assustador em seus filmes anteriores (UM RATINHO ENCRENQUEIRO, A MEXICANA e O CHAMADO) e faz uma gororoba sem autor, sem cara, mas bastante divertida. como uma "ride", alguns diriam. é isso mesmo, de certa forma. um quadro funciona, outro não, mas é a vida. dessas incertezas vivem hollywood e a disneylândia. "vamos ver se isso é bom mesmo?" os bobos, como eu, caem. perdem 143 minutos de vida, riem um pouco, pensam na infância, escrevem críticas inúteis e bebem rum. uma vida de pirata pra nós e bebamos, amigos, yo ho! esse subtítulo denuncia tudo, na verdade. faz o filme soar como um episódio de seriado. é uma franquia começando? talvez. veremos. por ora basta olhar para a tripulação de esqueletos e vê-la marchar sob o luar e debaixo da água, revelando sua podridão por alguns segundos para depois esconder-se novamente sob o visual fofo dos piratas caribenhos. essa cena da il&m é o trunfo do filme e é absolutamente fantástica no que tem de sincera e de assustadora. destoa de todo o resto - engraçado, burlesco e agradável. leve como, supõe-se, todos querem que seja.


posted by MARCO DUTRA 02:46
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Terça-feira, Agosto 26, 2003

... nesse macintosh nao tem acento, nao da pra falar assim.


posted by MARCO DUTRA 01:56
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Segunda-feira, Agosto 18, 2003

enfim, o caso sexual de marco dutra:

um dia marco dutra estava no ônibus e...


posted by MARCO DUTRA 05:27
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todos preparados para a grande estréia de PIRATAS DO CARIBE?

YO HO! YO HO! A PIRATE´S LIFE FOR US!


posted by MARCO DUTRA 05:25
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sobre um homem chamado VICTOR SALVA:
ele fez um curta de terror que chamou atenção do coppola. o coppola produziu seu longa de estréia - PALHAÇO ASSASSINO, disponível em vídeo no brasil. depois de anos ele dirigiu ENERGIA PURA, um filme que eu me lembro de ter visto no cinema e odiado. algo sempre me dizia "veja de novo". talvez eu veja de novo um dia. descobriram que victor salva molestava criancinhas. acharam vídeos. BAD COMPANY, seu outro filme, fracassou como o anterior, parcialmente por causa dessa polêmica. fez um filme barato e obscuro sobre incesto e homossexualismo e voltou ao terror com OLHOS FAMINTOS, de novo com coppola na produção. fez algum sucesso. aparentemente o homem entende de filmes de medo e de filmes fantásticos em geral, além de ser um simpático pervertido. OLHOS FAMINTOS 2 chega logo. legal.


posted by MARCO DUTRA 05:22
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- estou quase terminando de ler A DIVINA COMÉDIA. sabe que não é tão engraçado?


posted by MARCO DUTRA 05:00
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- hoje fui no forró e dancei MUUUUUUITO. pena que o chão era de cimento e não dava pra arrastar legal.


posted by MARCO DUTRA 04:55
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A INGLESA E O DUQUE revelou-se um grande filme, e eu juro que estou gostando dos contos das estações (só falta ver o de inverno). revi todo o jacques tati recentemente e me apaixonei de vez. agora revi OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR e vi DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS do jacques demy. POR DEUS, ESTOU VIRANDO FÃ DE CINEMA FRANCÊS? na verdade, estou num momento cinema francês. acho que vou parar antes que seja tragado para o fundo fundo. mas que rohmer, tati e demy são bons demais, isso são.


posted by MARCO DUTRA 04:51
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Terça-feira, Agosto 12, 2003

nada dito de útil, mais uma vez

nada de inteligente escrito

sim - vocês todos estão certos -

essa foi mais uma...

NOITE VAZIA

(uma homenagem a walter hugo khouri)


posted by MARCO DUTRA 02:44
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EM BREVE

um caso sexual de marco dutra.


posted by MARCO DUTRA 02:35
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- a coisa dos livros... era brincadeira viu?


posted by MARCO DUTRA 02:34
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O EXTERMINADOR DO FUTURO 3 - A ASCENSÃO DAS MÁQUINAS (ou A REBELIÃO DAS MÁQUINAS...) não é uma bomba. surpresa. obviamente o filme tem uma narrativa gêmea aos episódios anteriores, como era de se esperar, mas carrega uma melancolia ainda mais acentuada, o que não era de se esperar. o final triste é o melhor, lembra um pouco o clima de IMPACTO PROFUNDO (vamos lá, atirem as pedras), mas há também outros momentos muito bons como a perseguição pelas ruas de los angeles. jonathan mostow não se sente confortável com efeitos digitais (pode-se ver isso em BREAKDOWN e U-571) e as coisas aqui tendem a parecer realistas. menos videogame, o que quer que isso possa significar pra vocês. videogames são legais, nada contra eles. sempre há os ruins, claro. de qualquer forma, esse TERMINATOR 3 não é joguinho. é bem filmado. é FILMADO, na verdade. muitos efeitos, sempre realistas. e kristanna loken, o melhor exterminador de todos os tempos. e james cameron que... ops, esse não. não dessa vez.


posted by MARCO DUTRA 02:29
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brincadeirinha.


posted by MARCO DUTRA 02:09
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- O MILIONÁRIO é um livro estupendo. o melhor livro de marketing pessoal que já li, muito melhor que PAI RICO, PAI POBRE. ele mostra que a riqueza é conseqüência de um estado de espírito e que a dedicação é o melhor caminho pra ser alguém na vida.



(hoje mesmo vou apagar o icq. decidi ser alguém na vida).


posted by MARCO DUTRA 02:04
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- há apenas um livro que eu li até o final, ele se chama TUDO TEM UMA RESPOSTA, é um calhamaço desse tamanho mas é ótimo porque tem um estilo super leve e quando a gente começa a ler não pára mais. sabe o que me aconteceu ao ler esse livro? quando eu estava chegando no final, deu vontade de parar pra não acabar, acredita? juro. dá pena de acabar.


posted by MARCO DUTRA 01:59
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Segunda-feira, Agosto 11, 2003

falando em exterminadores, por onde anda o james cameron?


posted by MARCO DUTRA 03:12
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saiu no mais! faz umas semanas e eu achei muito bom, realmente o que de melhor foi dito sobre a continuação de MATRIX. cansei de discutir, nem sei se o filme merece tanta defesa. só peço que vocês mantenham a coerência: se deixaram o cinema em 1999 alucinados e compraram capas pretas imediatamente, não venham falar mal do RELOADED ok? tentem ser coerentes.


posted by MARCO DUTRA 02:37
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"MATRIX RELOADED" ESPELHA OS DILEMAS DA ESQUERDA ATUAL EM SUA LUTA CONTRA O SISTEMA

RESISTÊNCIA ENTRE QUATRO PAREDES
Slavoj Zizek

Existe algo de inerentemente ingênuo e estúpido em levar a sério as bases "filosóficas" da série "Matrix" e discutir as implicações delas. Está na cara que os irmãos Wachowski não são filósofos, mas apenas dois sujeitos que flertam superficialmente com alguns conceitos "pós-modernos" e new age e os exploram de maneira confusa. "Matrix" é um desses filmes que funcionam como uma espécie de teste de Rorschach, que coloca em movimento o processo universalizado de reconhecimento, como aquela célebre pintura de Deus que parece estar sempre olhando diretamente para você, não importa desde onde você olhe para ela -ou seja, praticamente todas as orientações parecem reconhecer-se nele. Meus amigos lacanianos me dizem que seus autores devem ter lido Lacan; os seguidores da Escola de Frankfurt enxergam em "Matrix" a incorporação extrapolada da "indústria cultural", a substância social alienada-concretizada (do capital) assumindo o poder diretamente, colonizando nossa própria vida interior, usando a nós como a fonte de energia; os seguidores das idéias new age enxergam especulações sobre como nosso mundo não passa de uma miragem gerada por uma mente global incorporada à web, e tudo isso sem falar na onipresença de Jean Baudrillard. A série "Matrix" remete à "República" de Platão: afinal, "Matrix" não repete exatamente o dispositivo da caverna de Platão (os seres humanos comuns como prisioneiros, amarrados com firmeza em seus assentos e forçados a assistir à encenação do que consideram, falsamente, ser a realidade -em suma, a posição assumida pelos próprios espectadores de cinema)?

Engodo filosófico
Assim, a busca pelo conteúdo filosófico de "Matrix" constitui um engodo, uma armadilha a ser evitada. As leituras pseudo-sofisticadas que projetam no filme as distinções filosóficas refinadas ou psicanalíticas conceituais são, de fato, muito inferiores à imersão ingênua que pude testemunhar quando assisti a "Matrix" num cinema da Eslovênia. Tive a oportunidade única de me sentar ao lado do espectador ideal do filme -um idiota. Um homem na casa dos 20 anos, quase 30, sentado à minha direita estava tão mergulhado no filme que a todo momento perturbava os outros espectadores, exclamando em voz alta coisas como: "Meu Deus, uau! Quer dizer que não existe realidade! Somos todos marionetes!". O que é interessante, sim, entretanto, é ler os filmes "Matrix" não como portadores de um discurso filosófico consistente, mas como intérpretes, por suas próprias inconsistências, dos antagonismos inerentes à difícil situação ideológica e social em que nos encontramos. O que é a Matrix, então? Simplesmente o que Lacan descreveu como "o grande Outro", a ordem simbólica virtual, a rede que estrutura a realidade para nós. Essa dimensão do "grande Outro" é a da alienação constitutiva do sujeito na ordem simbólica: o grande Outro mexe os pauzinhos; o sujeito não fala, mas "é falado" pela estrutura simbólica. Em outras palavras, esse "grande Outro" é o nome dado à substância social, a tudo aquilo devido ao qual o sujeito nunca chega a dominar plenamente os efeitos de seus atos, isto é, devido ao qual o resultado final de sua atividade é sempre algo distinto daquilo a que ele visou ou que previu. E as inconsistências da narrativa do filme espelham à perfeição as dificuldades que sentimos em romper as amarras da substância social. Quando Morpheus tenta explicar a Neo, ainda perplexo, o que é a Matrix, ele a vincula a uma falha na estrutura do universo: "É aquela sensação que você teve a vida inteira. Aquela sensação de que havia algo de errado no mundo. Você não sabe o que é, mas está ali, como uma lasca enfiada em sua cabeça, deixando você maluco".

"Falha do sistema"
Aqui o filme se depara com sua inconsistência máxima: a experiência da ausência/inconsistência/obstáculo supostamente deve ser testemunho do fato de que aquilo que vivenciamos como sendo a realidade é mentira. No entanto, perto do final do filme, Smith, o agente da Matrix, oferece uma explicação diferente, muito mais freudiana: "Você sabia que a primeira Matrix foi projetada para ser um mundo humano perfeito? Onde ninguém iria sofrer, todo o mundo viveria feliz? Foi um desastre. Ninguém aceitou o programa... Os seres humanos, como espécie, definem sua realidade por meio do sofrimento e da dor". Assim, a imperfeição de nosso mundo é ao mesmo tempo sinal de sua virtualidade e de sua realidade. Poderíamos afirmar, de fato, que o agente Smith (é bom lembrar que se trata não de um ser humano como outros, mas da incorporação virtual direta da própria Matrix, ou seja, do grande Outro) é alguém que representa a figura do analista dentro do universo do filme: a lição que ele ministra é que a vivência de um obstáculo insuperável é a condição positiva para que nós, humanos, possamos apreender algo como realidade -a realidade, em última análise, é aquilo que "resiste". Vinculada a essa inconsistência está o status ambíguo da libertação da humanidade anunciada por Neo na última cena. Em consequência de sua intervenção, ocorre na Matrix uma chamada "falha do sistema"; ao mesmo tempo, Neo se dirige às pessoas ainda presas dentro da Matrix como o Salvador que as ensinará a se libertarem das limitações da Matrix -elas poderão quebrar as leis físicas, dobrar metais, voar... Entretanto o problema é que todos esses "milagres" só se tornam possíveis se nos conservarmos "dentro" da realidade virtual mantida pela Matrix e apenas dobrarmos ou modificarmos suas regras: nossa condição "real" ainda é a de escravos da Matrix; estamos, por assim dizer, apenas ganhando poder adicional para modificar as regras que regem nossa prisão mental. O que dizer, então, da idéia de sair por completo da Matrix e ingressar na "realidade real" na qual somos criaturas miseráveis que habitam a superfície destruída da terra? Será a solução uma estratégia pós-moderna de "resistência", de "subverter" ou "deslocar" interminavelmente o sistema de poder ou uma tentativa mais radical de pôr fim a ele?

Sabor de coisa real
Recordemos outra cena memorável, na qual Neo precisa optar entre o comprimido vermelho ou azul. É a opção entre a Verdade ou o Prazer: ou o acordar traumático no Vermelho ou continuar na ilusão regulada pela Matrix. Ele escolhe a Verdade, contrastando com o personagem mais desprezível do filme, o informante/agente da Matrix entre os rebeldes, que, na cena memorável do diálogo com o agente Smith, pega com seu garfo um pedaço de carne vermelha e suculenta e fala: "Sei que isto não passa de ilusão visual, mas não me importa, porque tem sabor de coisa real". Em outras palavras, ele opta pelo princípio do prazer, que lhe diz que é preferível manter-se dentro da ilusão, mesmo sabendo que se trata de uma ilusão e nada mais.
Mas a escolha de Matrix não é tão simples assim: afinal, exatamente o que é que Neo vai oferecer à humanidade ao final do filme? Não um acordar diretamente no "deserto do real", mas um flutuar livre entre a multidão de universos virtuais: em lugar de ser simplesmente escravizado pela Matrix, podemos nos libertar dela, aprendendo a dobrar suas regras -podemos alterar as regras de nosso universo físico e, assim, aprender a voar livremente e a violar outras leis físicas. Em suma, a opção não se dá entre a verdade amarga e a ilusão prazerosa, mas entre os dois modos de ilusão; o traidor vive atrelado à ilusão de nossa "realidade", dominada e manipulada pela Matrix, enquanto Neo oferece à humanidade a experiência do universo como playground, no qual podemos jogar uma infinidade de jogos, passando de um para outro, reformulando as regras que fixam nossa experiência da realidade. De maneira adorniana, deveríamos afirmar que essas inconsistências constituem o momento de verdade do filme: elas assinalam os antagonismos de nossa experiência social capitalista posterior, antagonismos que dizem respeito a pares ontológicos básicos tais como realidade e dor (a realidade como aquilo que perturba o reinado do princípio do prazer), liberdade e sistema (a liberdade só é possível dentro do sistema que impede seu desenrolar pleno).

Dois aspectos da perversão
Em última análise, porém, a força maior do filme pode ser localizada em nível diferente. Seu impacto singular reside não tanto em sua tese central (de que aquilo que vivenciamos como realidade é uma realidade virtual artificial gerada pela "Matrix", o megacomputador conectado diretamente às mentes de todos nós), mas em sua imagem central dos milhões de seres humanos levando uma vida claustrofóbica em berços repletos de água, mantidos vivos para que possam gerar a energia (eletricidade) que move a Matrix. Assim, quando (algumas das) pessoas "despertam" de sua imersão na realidade virtual controlada pela Matrix, esse despertar não é a abertura para dentro do espaço amplo da realidade externa, mas a primeira e assustadora tomada de consciência desse cárcere, dentro do qual cada um de nós é, de fato, não mais do que um organismo semelhante a um feto, imerso no fluido pré-natal. Essa passividade absoluta é a fantasia previamente executada que sustenta nossa experiência consciente como sujeitos ativos, autopostulados -ela é o máximo em termos de fantasia "perversa", a noção de que, em última análise, somos "instrumentos" da "jouissance" do Outro (da Matrix), tendo nossa substância vital sugada para fora como se fôssemos baterias. Isso nos conduz ao verdadeira enigma libidinoso: por que a Matrix precisa de energia humana? É evidente que a resposta puramente energética não faz sentido; a Matrix poderia facilmente ter encontrado outra e mais confiável fonte de energia, uma que não exigisse o arranjo extremamente complexo da realidade virtual coordenada para milhões de unidades humanas. A única resposta consistente é que a Matrix se nutre da "jouissance" humana -e aqui nos vemos de volta à tese lacaniana fundamental de que o próprio grande Outro, longe de ser uma máquina anônima, precisa receber um fluxo constante de "jouissance". E aí se encontra o insight correto de "Matrix", o filme: ao justapor os dois aspectos da perversão -por um lado, redução da realidade a um domínio virtual regido por regras arbitrárias que podem ser suspensas, e, por outro, a verdade oculta dessa liberdade: a redução do sujeito a uma passividade instrumentalizada absoluta. "Matrix Reloaded" propõe -ou, melhor dizendo, brinca com- uma série de maneiras de superar as inconsistências do primeiro filme da série. Entretanto, ao fazê-lo, se deixa emaranhar em inconsistências próprias, novas. O final do filme é aberto e não contém decisão, não apenas em termos narrativos, mas também no que diz respeito a sua visão subjacente do universo. O tom básico é de complicações e suspeitas adicionais que tornam problemática a ideologia simples e clara de libertação da Matrix que forma a base do primeiro filme.

Excesso de Matrix
Dúvidas são lançadas sobre as duas figuras-chave. São verdadeiras as visões de Morpheus ou será que ele é um louco paranóico que impõe suas alucinações aos outros? Neo tampouco sabe se pode confiar no Oráculo, a mulher que prevê o futuro: será que também ela o está manipulando com suas profecias? Será ela uma representante do lado bom da Matrix, em contraste com o agente Smith, que, em "Reloaded", se transforma num excesso da Matrix, um vírus ensandecido que se multiplica para evitar ser deletado? E o que dizer dos pronunciamentos crípticos do Arquiteto da Matrix, o redator de seu software, seu Deus? Ele avisa a Neo que ele está, na realidade, vivendo na sexta versão atualizada da Matrix. Em cada uma delas surgiu a figura de um salvador, mas suas tentativas de libertar a humanidade terminaram em catástrofes de grandes proporções. Será, então, que a rebelião de Neo, longe de constituir um fato único, não é mais do que parte de um ciclo maior de perturbação e restabelecimento da Ordem? Assim, ao final de "Matrix Reloaded" tudo é posto em dúvida; a questão não é apenas se uma revolução qualquer contra a Matrix poderá ou não cumprir o que pretende nem mesmo se precisa terminar numa orgia de destruição, mas se seu advento não terá sido previsto pela Matrix ou até mesmo planejado por ela. E será que mesmo aqueles que se libertam da Matrix têm a liberdade de fazer qualquer escolha? Será a solução, apesar disso, correr o risco da rebelião declarada, resignar-se a jogar os jogos locais de "resistência" -ao mesmo tempo em que permanece dentro da Matrix- ou até mesmo realizar uma colaboração interclasses com as forças "boas" da Matrix? É aqui que "Matrix Reloaded" termina: numa falha de "mapeamento cognitivo" que espelha à perfeição a sinuca em que se encontra a esquerda hoje e sua luta contra o sistema. Uma virada adicional é fornecida no final do filme, quando Neo magicamente faz com que as máquinas más, que lembram polvos, não ataquem os humanos, simplesmente erguendo sua mão. Como ele conseguiu essa proeza no "deserto do real", e não dentro da Matrix, onde, é claro, ele é capaz de operar maravilhas, congelar o fluxo do tempo, desafiar as leis da gravidade etc.? Será que essa inconsistência não-explicada aponta para a solução segundo a qual "tudo o que existe é gerado pela Matrix" e que não existe nenhuma realidade absoluta? Embora deva ser rejeitada a tentação pós-moderna de encontrar uma saída fácil dessa confusão, proclamando a existência de uma série infinita de realidades virtuais que se espelham umas nas outras, existe um insight correto nessa complicação da divisão simples e reta entre a "realidade real" e o universo gerado pela Matrix: mesmo que a luta transcorra na "realidade real", a luta-chave precisa ser vencida na Matrix, razão pela qual é preciso reingressar em seu universo fictício virtual. Se a luta tivesse se dado unicamente no "deserto do real", ela teria sido mais uma distopia entediante sobre os resquícios da humanidade combatendo máquinas malévolas. Formulando o problema nos termos do velho par marxista "infra-estrutura/ superestrutura", é preciso levar em conta a dualidade irredutível dos processos socioeconômicos materiais "objetivos" que ocorrem na realidade, de um lado, e do processo político-ideológico propriamente dito, por outro lado. E se o reino da política for inerentemente "estéril", um teatro de sombras, mas, apesar disso, crucial para a transformação da realidade? Assim, embora a economia seja o lugar real e a política um teatro de sombras, a luta principal deve ser travada nos campos da política e da ideologia.

Batalha no interior
Tome-se o caso da desintegração do comunismo no final dos anos 1980: embora o acontecimento principal tenha sido a perda real de poder dos comunistas sobre o Estado, a quebra crucial ocorreu num nível diferente -naqueles momentos mágicos em que, embora formalmente os comunistas continuassem no poder, as pessoas de repente perderam o medo e deixaram de levar a ameaça a sério, de modo que, mesmo que as batalhas "reais" com a política continuassem a acontecer, todo mundo sabia, de alguma maneira, que "o jogo tinha terminado".
Assim, o título de "Matrix Reloaded" é inteiramente apropriado: se a parte um tratou principalmente do impulso de escapar da Matrix, libertar-se de seu domínio, a parte dois deixa claro que a batalha precisa ser vencida no interior da Matrix -que é preciso retornar a ela.
Assim, os irmãos Wachowski elevaram conscientemente o valor da aposta em "Matrix Reloaded", colocando-nos frente a frente com todas as complicações e confusões do processo de libertação. Com isso, eles se meteram numa enrascada: o que eles têm pela frente agora é uma tarefa quase impossível. Para que a próxima parte da trilogia, "Matrix Revolutions", faça sentido e faça sucesso, terá que oferecer nada menos do que a resposta correta aos dilemas da política revolucionária hoje -um roteiro do ato político que a esquerda tão desesperadamente procura.

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Slavoj Zizek é filósofo esloveno e professor no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. É autor de "O Mais Sublime dos Histéricos" (ed. Jorge Zahar). Escreve mensalmente na seção "Autores", do Mais!.
Tradução de Clara Allain.


posted by MARCO DUTRA 02:26
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Quinta-feira, Agosto 07, 2003

todo mundo tá ficando contra mim?
ps: fiz aquele teste e ele disse que eu sou 46% gay. isso é um ultraje.


posted by MARCO DUTRA 14:56
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Sexta-feira, Agosto 01, 2003

pra terminar 2:

acabo de descobrir que rick rosenthal, o diretor de HALLOWEEN: A RESSURREIÇÃO, dirigiu o episódio 2 dessa mesma série. a parte 2, por sua vez, tinha maculado a parte 1, dirigida por john carpenter. ele também dirigiu, para a tv, OS PÁSSAROS 2, que maculou a obra-prima de hitchcock. além disso está preparando HALLOWEEN 9. vamos lá, o homem merece ou não a cadeira elétrica?


posted by MARCO DUTRA 03:37
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pra terminar:

aluguem JÁ o dvd FÁBULAS volume 1 da disney. lá está A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA, de 1949. um desenho absurdo de bom (melhor que o filme do tim burton) e até agora inédito no brasil. voem pro vídeo.


posted by MARCO DUTRA 03:32
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pode discordar e comentar. se quiser.


posted by MARCO DUTRA 03:07
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ÂNIMO!

o anima mundi passou e eu vi três sessões. AS TRIGÊMEAS DE BELLEVILLE é bem divertido, assim como o melancólico MINHA VIDA COMO MCDULL. os curtas de KOJI YAMAMURA (principalmente MONTE CABEÇA) são bem fofos. mas ver animação demais de uma vez só parece que te faz jogar qualquer coisa numa vala comum, você perde o senso crítico. o que ficou desses filmes pra mim foi uma tristeza: todos tinham trilhas sonoras absurdamente magníficas, e eu provavelmente jamais poderei ouvi-las de novo.

ps - AS FÉRIAS DO M. HULOT e MEU TIO confirmam jacques tati como um dos meus cineastas preferidos. um animador, de verdade, um animador de atores e cenários reais. veja a personagem da vizinha em MEU TIO, por exemplo. a mulher é um desenho animado vivo melhor que qualquer desenho desenhado. ok, isso é um exagero, principalmente vindo de mim (eu adoro desenhos animados - SINBAD, alguém?). bem, todos conferindo TRAFIC - M. HULOT NO TRÁFEGO LOUCO no domingo lá no sesc tá? e quem não puder ir ou morar em outro estado pode pegar tudo em dvd (menos TRAFIC, esse só tem em vhs), inclusive PLAYTIME, que não passou no sesc.


posted by MARCO DUTRA 02:59
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MAIS E MAIS E MAIS!!!

vamos falar de decepções?

A ESTRADA PERDIDA. só tinha visto uma vez, em vídeo, quando saiu. agora vi no cineclube. achei chato e sem graça. CIDADE DOS SONHOS é bem mais interessante, mesmo para os que gostam de ficar tentando achar o fio da meada nesses filmes loucos do lynch. VELUDO AZUL e A HISTÓRIA REAL continuam sendo os melhores pra mim, o primeiro no setor "filmes bizarros", o segundo no "filmes normais".

EXTERMÍNIO. coitado, veio parar logo na ala das decepções! não merece tanto, mas é uma grande reciclagem de idéias boas usadas de forma não muito boa. eu adoro zumbis, já vi centenas de filmes de zumbi, todos melhores que esse. alex garland escreveu os livros A PRAIA e O TESSERACTO antes de escrever o roteiro de EXTERMÍNIO. A PRAIA, acreditem, era um bom livro. parece que ele escreveu esse roteiro pro danny boyle (danny boring?) - inclusive reutilizando idéias de A PRAIA - meio que pra pedir desculpas pros fãs pela bomba que a fox produziu com leonardo dicaprio.

HALLOWEEN: A RESSURREIÇÃO. a maioria das pessoas diria "claro que esse filme seria uma bomba, por que diabos você pagou pra ver?". pra essa maioria eu digo que H20, de 1998, foi uma das mais agradáveis surpresas que o cinema de terror adolescente americano já produziu. esse novo episódio não só consegue ser um dos piores filmes jamais feitos como destrói o ótimo filme anterior (na base do "veja só, não era nada daquilo, o que aconteceu de verdade foi isso: ...". absolutamente desprezível, nojento, boçal e tudo mais.


posted by MARCO DUTRA 02:44
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MAS SEMPRE TEMOS OUTROS FILMES PARA CRITICAR!!!

eric rohmer me surpreendeu. só tinha visto O JOELHO DE CLAIRE (70) e tinha achado um grande lixo. semana passada vi três filmes dele no cineclube do sesc: O SIGNO DO LEÃO (59, o primeiro longa dele, no mínimo tão bom quanto os primeiros de truffaut e melhor que os de godard), AS QUATRO AVENTURAS DE REINETTE E MIRABELLE (87, uma comédia bem francesa e bem agradável que conta quatro episódios na vida dessas duas amigas - juro que tenho uma idéia meio parecida com uma personagem minha chamada catarina) e A ÁRVORE, O PREFEITO E A MEDIATECA (93, esse um filme absolutamente maravilhoso. o prefeito de uma cidade de pouco mais de dois habitantes resolve construir uma mediateca - um sesc, praticamente - no meio do vilarejo. uma árvore antiga terá que ser derrubada. e agora? absolutamente francês e genial. será possível que eu, marco dutra, esteja mesmo usando as palavras "francês" e "genial" na mesma frase?). vamos todos, então, ver os contos das estações e A INGLESA E O DUQUE, em cartaz perto de você.

kiarostami estava precisando me convencer. eu gosto de ATRAVÉS DAS OLIVEIRAS (94) e de ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO? (87) e não gosto de O VENTO NOS LEVARÁ (99) e de GOSTO DE CEREJA (97). não vi CLOSE-UP (90), E A VIDA CONTINUA (91) e ABC ÁFRICA (01). agora estreou DEZ (02) e eu fui ver. decidi: gosto dele. DEZ, na minha opinião, é o melhor filme em cartaz (será que a estréia de O EXTERMINADOR DO FUTURO 3 muda isso?).


posted by MARCO DUTRA 02:30
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O DOSSIÊ HITCHCOCK - PARTE 1

muitos mostraram interesse em saber minha humilde opinião sobre esse notável inglês barrigudo. mas só vou escrevê-la depois de terminar de assistir à toda a fase inglesa do diretor, ou seja, os filmes que fez antes de 1940, quando partiu para a américa. é isso. portanto:

A SEGUIR! MARCO DUTRA EXAMINA DE PERTO A FASE INGLESA DE HITCH!


posted by MARCO DUTRA 02:11
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mesmo porque é uma frase ridícula, assim como toda essa discussão. por que você, adorável-apesar-de-diminuto público, não diz o que prefere? vamos lá, assinalem:

A - se querem me ouvir falar asneiras da minha vida pessoal ou...

B - se querem que eu faça críticas inúteis das coisas que vejo por aí ou...

C - se querem que eu acabe com o blog.


posted by MARCO DUTRA 02:06
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por outro lado nunca ninguém perguntou, e eu acho que essa frase aí nunca sairia pela minha boca.


posted by MARCO DUTRA 01:59
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acho que ele disse isso porque eu saía pouco da casa e não tinha amigos na rua. meus amigos eram da escola e moravam longe. eu lia bastante na época e já via filmes numa quantidade maior do que deveria ver. e nem eram bons filmes, ou bons livros em sua maioria. e por mais que os filmes e livros tentassem me convencer de que eu podia, através deles, viver mais intensamente do que qualquer um, eu sabia que isso no fundo era mentira e que viver mesmo não era ler nem ver filmes, era sair na rua e sentar na calçada na frente de casa. houve um ano em que essas coisas na rua me fizeram muita falta. houve outro em que não fizeram. hoje estou convencido de que vivi tanto quanto qualquer pessoa normal - mas o que eu digo para os que perguntam é algo como "isso não existe. viver mais ou viver menos não existe. ninguém vive mais que ninguém, a intensidade do viver é totalmente subjetiva e não pode ser medida".


posted by MARCO DUTRA 01:55
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uma vez meu irmão gritou comigo - estávamos discutindo e éramos pequenos - "pelo menos eu vivo a vida".


posted by MARCO DUTRA 01:47
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mas não, viver não é fazer rafting não.


posted by MARCO DUTRA 01:46
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filmes filmes filmes. 40 por dia, como disse o pedro granato? não, isso nem seria possível. talvez a razoável média de um por dia, contando cinema e vídeo. alguns dias passam sem filme algum, depois temos um dia com três filmes. é assim que é, a vida passa e, vendo a velhice se aproximar - do alto dos meus longos 23 -, me pergunto se não devia parar de ver filmer e começar a fazer rafting mais vezes. já contei da vez em que fui fazer rafting lá em santa catarina? não? então, estava no sul, naquela viagem tristonha já mencionada algumas vezes, e fui descer um rio de bote com os primos e um irmão. minha voz foi a única a dizer "vamos aqui pelo caminho seguro", todos os outros eram "claro que por esse aqui mais pesado!" então o barco rumou pras corredeiras medonhas e, por meia hora, eu não sabia mais quem eu era. queria sair vivo. e foi uma sensação boa, essa de não ser o mesmo, não pensar por um segundo no filme que se viu ou no livro que se está lendo. era água água água e dentes nos remos e um pouco de sangue saindo de um corte e pânico. quando acabou eu só queria dormir - nem me sentia cansado, mas sabia que seria isso o mais perto que eu chegaria daquela sensação. é. viver é fazer rafting.


posted by MARCO DUTRA 01:43
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às vezes é preciso fazer uma escolha. viver ou manter um blog? escolhi manter um blog. não adiantou nada. inútil que sou, nem vivi nem atualizei essa porcaria. fiquei vendo filmes.


posted by MARCO DUTRA 01:28
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