eu sou uma barata
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tentativa de diário

Terça-feira, Abril 29, 2003

o que eu tentei fazer nesse poema (logo abaixo) foi, creio - colocar uma moral de cara, logo no início ("nada pode dar certo", um clichê do pessimismo, só em momentos muito ingênuos eu cairia nele tão facilmente), depois usar um exemplo ridículo pra demonstrá-la (o menino MORRE de tétano porque o destino é mesmo implacável). não funciona, não é mesmo? parece sério. todos levam a sério. acham que isso parece minha filosofia de vida, por deus, chegam mesmo a dizer que essa seria minha IDEOLOGIA. disseram que lembra o fernando bonassi. não há nada no mundo pior do que os escritos de fernando bonassi, então pra mim esse foi o maior dos insultos. leitores, NUNCA me levem a sério. minha angústia é forjada. não quero que vocês se identifiquem, não quero que se emocionem, não quero que comentem, não quero que pensem absolutamente nada que não isso: esse é o marco, ele escreve isso e escreve dessa forma. usa alguns minutos de dias alternados para deixar um cocô de texto nessa página amarela e feia. ele sempre é irônico, ou quase sempre, entenda-se com isso que ele não odeia nada nem ninguém (exceto talvez o bonassi), não odeia a vida (chega a amá-la às vezes, no início do inverno), a atravessa com calma e com um pouco de preguiça, como um inseto mesmo, não pretende convencer ninguém da podridão da carne e da escuridão do universo e, pela última vez, não possui nada que sequer se aproxime de formar uma IDEOLOGIA. para prová-lo, disponibiliza em primeiríssima mão sua inútil crítica para X-MEN 2, filme ao qual assistiu, junto com os gêmeos da casa dos artistas de cujos nomes não se lembra (entre outras figuras famosas), na noite de segunda, dia 28, em pré-estréia mundial.

antes: uma palavra de lawrence kasdam sobre DREAMCATCHER - "quando as pessoas dizem que o mais assustador é o que não se pode ver, i don't buy it. pra mim, os filmes têm que dar o que prometeram. meu filme é um filme de criaturas, e eu as mostro até o fim". sim, querido lawrence, acalme-se: esse não é de jeito nenhum o grande problema do seu filme, seu esforço é louvável, assim como os deliciosos aliens da IL&M, mas as falhas continuam lá, expostas.

X-MEN 2 não é - como me pareceu a princípio - melhor do que o primeiro. estão lá todos os personagens interessantes (magneto e mística mais uma vez os campeões absolutos) e a câmera voadora de bryan singer, mas o roteiro faz tudo não passar de um action movie qualquer, cheio de buracos e diálogos estúpidos. e dura demais, duas horas e quinze, milhas de película. a luta dos mutantes pela igualdade no planeta perdeu espaço para questões pessoais envolvendo um certo general stryker, o vilão mais estereotipado da temporada: carrancudo e rancoroso, quer matar todos os mutantes vivos (além de abusar do filho), e ainda foi o criador do wolverine - claro, as revelações não param. não, tempestade não é filha de xavier nem nada do tipo, mas algo chocante acontece, sim, no final. PARE DE LER JÁ caso não queira saber do que se trata. jean grey, a mais linda das mutantes, simplesmente morre. lispectorianamente. morre. no cinema todo mundo chorava, e me ocorreu nesse momento que a boa bilheteria de CARANDIRU está com os dias contados, porque os brasileiros devem ter mais interesse nesse filme-clichê-com-final-triste do que no polêmico massacre de 111 presos (porque esse número não me surpreende? se a polícia entrou como entrou e atirou como atirou, não deveriam ter morrido muitos mais? - eram mais de dois mil no pavilhão nove. se mais morreram, como os corpos desapareceram?). mas bilheterias são cruéis. qualquer filme americano consegue tão facilmente destronar qualquer filme nacional. bem, se conselho serve pra algo: não paguem pra ver X-MEN 2. se for insuportável, se precisarem ver, esperem o home video. e vejam CARANDIRU e DURVAL DISCOS outra vez.

(reli o parágrafo. fiz o filme parecer uma desgraça. na verdade foi uma sessão divertidíssima, uma noite boa. minto nessa página. a tentação agora é a de formar uma persona crítica. jamais reveria CARANDIRU ou mesmo DURVAL e pagaria pra ver X-MEN 2 se não tivesse sido convidado pelo bondoso andré. sou um engodo. paro de escrever).


posted by MARCO DUTRA 03:56
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Sexta-feira, Abril 25, 2003

não há tentativa que não resulte em falha
o que criamos é a idéia de - sucesso
como nos mostra a história do menino pedro:
todos os dias ia para a escola
pelo mesmo caminho de barro com a lancheira
e chegava de sapatos sujos
mesmo quando se mantinha próximo à cerca
que corria paralela ao caminho de barro
como aconselhava sua mãe

sem motivo aparente
- porque nunca se sabe dizer
qual o dia que vai mudar a vida
antes desse dia chegar -
ele resolveu rolar por baixo do arame farpado e tomar
um atalho
chegou amassado mas bem limpo
(não que alguém tenha notado
ninguém jamais o notava)
ficou feliz

notou em casa que cortara o dedo na escola
não pensou que podia era ter cortado
o dedo na cerca de arame farpado e que
podia ter pego tétano e que o tétano poderia mesmo
matá-lo
não pensou

faleceu em outubro
onze ou doze
anos de idade

por isso:
não há tentativa que não resulte em falha
o que criamos é nada


posted by MARCO DUTRA 14:16
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Quinta-feira, Abril 24, 2003

I - CARANDIRU, de hector babenco, lembra UMA ONDA NO AR, filme nacional sobre a experiência da rádio favela em minas gerais: em ambos, as intenções humanistas são louváveis. em ambos, reina certa insegurança estilística e alguma incompetência formal. CARANDIRU não chega a ser ruim, mas é irregular. pode-se falar de como gero camilo e rodrigo santoro estão ótimos e em perfeita sintonia numa crônica que funciona muito bem, ou de como caio blat e wagner moura se esforçam para tornar interessantes seus episódios forçados. são contos isolados de qualidade diferente. o episódio de rita cadillac, por exemplo, é excelente porque soa real. a trajetória de lady dai e de sem-chance é ótima por se tratar de ficção de qualidade. o polêmico massacre começa bem - a cena do hino nacional é provavelmente a melhor do filme e seu ponto crucial: nada lá dentro do presídio, afinal, é muito diferente do que acontece do lado de fora. mas ao contrário de CIDADE DE DEUS (filme do qual não gosto mas no qual vejo qualidades formais inegáveis) e de MADAME SATÃ (muito bom), CARANDIRU não tem força alguma para o público mais experiente (talvez eu esteja tomando a liberdade de falar em nome do público mais experiente, mas enfim). soa exagerado, pesado, tosco. convence os leigos. ainda bem - o público assiste e gosta. ótimo, porque é melhor do que quase tudo que passa na tv. é fácil encontrar na saída velhas senhoras ou casais dizendo que "essa é a realidade, se ao menos o filme ajudasse a mudar, mas muda nada." o filme acaba por se tornar talvez uma experiência de vida, como a própria leitura do livro de drauzio varella. claro que não se pode esperar de todas as experiências de vida que sejam epifanias. ler o livro - é uma experiência válida, mesmo que sem grande qualidade literária. ver o filme - é uma experiência válida, mesmo que sem grande qualidade cinematográfica.

II - é bom ser capaz de achar que pode ser você quem vai, eventualmente, salvar o mundo, e que você pode começar sendo legal com os seus colegas de escola. stephen king entende o ambiente da escola de classe média e os meninos e meninas das escolas de classe média (daqui ou dos estados unidos, não importa, notem que são ambientes iguais - a classe média do mundo capitalista é a mesma em todo lugar). se você ajudar alguém, e esse alguém for, por acaso, um alienígena do bem, você estará para sempre protegido. trata-se de uma mensagem humanista tão digna quanto a mensagem humanista de CARANDIRU, e em O APANHADOR DE SONHOS ela está, pelo menos, bem fotografada e bem decupada. não há nada de errado com stephen king, e a única coisa errada com a adaptação cinematográfica de DREAMCATCHER é seu final apoteótico e - que coisa triste - engraçadinho. é moda hoje em dia: filmes pesados e assustadores aliviam seu público com piadinhas ou musiquinhas simpáticas no final. o próprio berlam granato, montador do filme em 35mm O LENÇOL BRANCO (dirigido, entre outra pessoa, por mim), queria encerrar esse curta (que tenta ser "pesado") com uma canção tosca de - quem mesmo? - alguém muito brega e engraçado... claro que foi vetado. shyamalan não destrói seus filmes no final. hitchcock soube manter-se silencioso no final de OS PÁSSAROS. todd field soube calar-se no final maravilhoso de ENTRE QUATRO PAREDES. apenas uns poucos conseguem ser irônicos com sucesso, e esses eu admiro: gente como todd solondz e stanley kubrick (alguém citou babenco e sua aquarela do brasil?). lawrence kasdam destrói DREAMCATCHER como se não percebesse. transforma o horror de pequenos monstros malditos vindos da infância - monstros que, geniais, aprisionam um dos personagens em seu próprio arquivo mnemônico - num carnaval apocalíptico e - surpresa - divertido. para as poucas pessoas que, como eu, souberem apreciar o horror, o medo que existe desde sempre sem motivo aparente, eu recomendo a leitura de O APANHADOR DE SONHOS. para os mais preguiçosos (o livro tem quase mil páginas), o filme deve bastar. ganha-se como bônus o melhor papel da carreira de morgan freeman: o americano típico, que adora americanos mas não hesitará antes de matar um americano ou qualquer pessoa que demonstre alguma compaixão em momento inadequado.


posted by MARCO DUTRA 03:03
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Quarta-feira, Abril 23, 2003

pós-dia do ovo:
VIAGENS é o tipo de filme que faz a pessoa querer ser outra: não suportei ser o mesmo no fim, então não fui. pode-se sair com a certeza absoluta de que tudo é aquele filme, e de que tudo é muito simples e muito bom, e de que o dever agora é fazer com que todo mundo se sinta assim. essa é uma das melhores sensações que posso ter e que posso desejar. ÂNSIA (CRAVE) é o quarto texto da dramaturga inglesa suicida sarah kane. já havia assistido a uma montagem do terceiro (CLEANSED - O PURIFICADO) e a outra do quinto e último (4.48 PSYCHOSE - esta com isabelle huppert). ÂNSIA é certamente a melhor das montagens e, possivelmente, o melhor texto da sarah. mas saiu de cartaz, sinto muito. DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA é menos ruim do que parece, e tem uma música simpática do arnaldo antunes no final. PROCURA-SE UM AMOR EM BARCELONA é engraçado primeiro e depois perde o tom. me despistou. MARIA RITA MARIANO tem uma voz muito bonita e enche o palco - dizem - como elis regina, sua mãe. não conheço muito de elis, mas a filha me pareceu simpática, ótima pessoa. KIPPUR - O DIA DO PERDÃO é uma experiência pela qual todos deveriam passar, ao menos para testemunhar uma aula de decupagem. houve muito mais, é claro, nesse feriado, mas o blog não é toda a minha vida. VIAGENS é realmente um filme maravilhoso.


posted by MARCO DUTRA 02:58
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Domingo, Abril 20, 2003

aconteceu de novo: adiar a sessão de CARANDIRU fez com que eu perdesse um pouco meu interesse pelo filme. "sei que não vou gostar" é o inocente pensamento usual... depois substituo por um improvável "posso gostar muito, oras".

enquanto não continuo a publicar AS INCORREÇÕES DE UM BLOG, posto uma imagem pintada pelo sr. medo para a esposa há muitos anos (ainda na década de 80). acho que o nome do quadro é A FUGA DA SENHORA TIMPANI (esse era o nome de solteira da sra. medo). o rabisco do sol chocado foi feito mais tarde, é claro, pelo bebê medo.




posted by MARCO DUTRA 02:42
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Sexta-feira, Abril 18, 2003

a série AS INCORREÇÕES DE UM BLOG tem a pretensão de cumprir todas as promessas não cumpridas e explicar tudo o que estiver inexplicado. isso inclui a história da família medo, para quem não sabe nada sobre o simpático casal e seu adorável filho.


posted by MARCO DUTRA 03:53
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numa obra, existem engenheiros de planejamento. eles fazem o cronograma, as medições e retrabalham os projetos quando estes precisam de alguma mudança. eles - e seus estagiários - quase não saem do escritório. possuem mesas enormes nas quais cabem folhas enormes de papel que em geral são plantas baixas ou tabelas de organogramas ou cronogramas. quando explode uma mangueira do compressor fora da sala, na obra - e um barulho enorme deixa todo mundo com um zumbido na cabeça - eles dizem: é normal, não se assustem. vivem em silêncio no meio do caos. suas salas improvisadas na construção parecem lembrá-los constantemente do fato de que são justamente escritórios que estão construindo ali. quando acabar a obra a salinha de madeira deles será destruída. centenas de outras salas em dezenas de outros andares passarão a existir para milhares de outras pessoas, todas elas ocupadas, todas elas ocupadas. eles gostam do que fazem.

numa obra, existem engenheiros de produção. eles andam pelos andares e falam em walkie-talkies o tempo todo. eles são pressionados pelos cronogramas. eles dormem pouco e escalam equipes noturnas para acabar o serviço a tempo. eles ganham bem e conhecem todo mundo: passeiam pelos escritórios quando chamados pelos engenheiros de planejamento e caminham pelos andaimes quando precisam passar as ordens para os mestres. eles gostam do que fazem e são felizes.

numa obra existem mestres. eles são de origem humilde e possuem o que as classes altas costumam chamar de fala rica. eles começam como serventes e vão escalando a pirâmide ao longo dos anos; levam cerca de quinze anos para chegar a essa posição. acreditam que a pessoa tem um destino: se você nasceu para ser engenheiro, você será um engenheiro e é só isso o que você vai ser. os mestres também têm walkie-talkies e falam o tempo todo com os engenheiros de produção. eles moram longe e acordam cedo. comem no refeitório e conversam bastante com seus encarregados. gostam do que fazem e estão satisfeitos.

há o cara que quer que na escada haja um corrimão
preza pelo que é seguro, zela pela vida
e há um outro que representa o cliente e não se importa demais com as coisas e prefere ficar jogando paciência no escritório
há também uma única moça
ela atende o telefone
ela se orgulha de lembrar um punhado de números de cor
mas ocasionalmente liga errado de propósito e engata uma conversa animada com a moça da fepasa
(todos eles, como os engenheiros, recebem vales e comem em restaurantes de sua escolha)
nessa parte que é um poema
todos eles ganham nomes
adriano - alemão - mariana -
mal sabem, ou ignoram
que é um cinema
o que constróem

numa obra, existem os encarregados: de carpintaria, de ferragem, dos pedreiros. eles sabem o que fazer e cuidam para que a mangueira do compressor não volte a explodir. falam direto com os mestres (porque os contra-mestres, dizem eles, estão em desuso e quase não existem mais). eles todos têm muitos e muitos serventes. os serventes são novos. eles não precisam ser muito fortes: as máquinas fazem grande parte do trabalho pesado hoje em dia. eles começam a trabalhar em obras porque não sabem fazer mais nada que possa render-lhes dinheiro. moram longe e acordam cedo, trabalham bastante e ganham pouco, mas a experiência se acumula e eles podem logo virar encarregados sem precisar "esquentar a carteira" (ato de colocar na carteira um trabalho que não realizou a fim de pular etapas na carreira). depois viram mestres - e param por aí, porque não podem virar engenheiros. comem no refeitório. as coisas mudaram muito de 1979 para cá, mas a hierarquia continua praticamente a mesma. eles não ligam. numa obra, gostam do que fazem, erguem espigões e são felizes.






(só um espaço, não espere por uma imagem)






da série
AS INCORREÇÕES DE UM BLOG - DEZEMBRO
por Marco Dutra, para o Diário da Barata

No dia 02 de dezembro de 2002, eu disse que aquele seria meu vigésimo segundo Natal, meu vigésimo segundo dezembro. As contas estavam erradas. Seria meu vigésimo terceiro Natal, meu vigésimo terceiro dezembro. Se eu apenas soubesse.

Nesse mesmo dia, escrevi sobre Wendy e Shirley, duas inglesas de Manchester. Meses se passaram, e hoje eu posso revelar o paradeiro das duas: elas vivem muito bem em Londres. Wendy perdeu seu marido Audrey nos anos 80 em um acidente automobilístico. Tem uma filha, Brenda, e com ela toma conta de uma pequena loja de flores no West End. Shirley continua casada com Jean-Pierre. Fica em casa a maior parte do dia esperando pelo marido. Os dois têm um casal de filhos já crescidos e quase formados - ambos - em Odontologia. Jean-Pierre é dono de uma das maiores lojas de departamento de Picadilly.

Ainda no dia 02, postei um poema que adoro: "ao levar um tombo". Notem que foi um dia rico em posts.

No dia 04, postei um fragmento de SOLARIS. O fracasso do filme parece ter tornado o livro menos relevante, mas é só uma impressão. Queria muito, naquela época, discutir a beleza da simplicidade. Hoje essa discussão me parece inútil. Leiam o Contardo Calligaris na Folha de São Paulo às quintas, ele fala muito sobre isso e sobre outras coisas ótimas.

No mesmo dia, o seguinte diálogo foi postado:
SENHORA: Mas ele garantiu que eu ganharia meu peso em alcatra.
PROPRIETÁRIO: Bem, madame, não há nada que eu possa fazer quanto a isso.
Esse diálogo aconteceu de fato.

Pouco depois, no dia 09, postei A FAIXA, sinopse para longa-metragem. Estou querendo trabalhar nela. Se puderem, leiam e opinem - todas as opiniões serão consideradas. Era fim de 2002, eu estava com muita coisa pra fazer, então postava sempre coisas velhas que já existiam.

Mais tarde, dia 28, eu postaria um monte de textos escritos sob a influência de drogas pesadas, por exemplo: ANO-NOVO, VIAGEM, SUL, MEDO, PASSADO NEGRO, SEXO, ÁGUAS-VIVAS. Esse tipo de apelação, no entanto, parece ter aumentado incrivelmente a popularidade do site.

Sobre dezembro: eu estava aprendendo a lidar com a má idéia que tinha sido o blog. ainda não sei lidar (não sei pra que ele serve) e ainda acho que deve ter mesmo sido uma má idéia, mas pelo menos me fez escrever.


posted by MARCO DUTRA 03:46
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Quarta-feira, Abril 16, 2003

vejam só quem me inspirou (antes essa pessoa tinha outro blog):
www.suspenderamminhacarteira.blogger.com.br


posted by MARCO DUTRA 02:47
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o que eu tenho feito não pode ser de interesse: nem as desgraças de sempre merecem ganhar espaço aqui. ok, talvez a morte tenha mesmo passado por perto, mas isso acontece bastante e eu nem menciono. o post anterior tem apenas a digníssima função de substituir o nada. o que se segue é algo que ouvi hoje no metrô - dois caras de terno e cabelo descolorido conversando, entre as estações paraíso e sé:

- ...sem nunca ter me visto na vida. e era minha chefe, e eu não sabia, claro.
- putz, que mico.

(eles falam alto e todos os outros ao redor, como eu, tentam - simulando um olhar perdido no horizonte ou, caso dos passageiros sentados do lado da janela, no escuro do túnel - seguir a linha de raciocínio surgida antes dos dois entrarem, mas é impossível ignorá-los, saco, ninguém poderia fazê-lo à exceção de uma ou outra velha senhora, nem aquele garoto encostado na porta, lendo A SOCIEDADE DO ANEL - ele está atrasado, está ainda no primeiro volume, o terceiro filme logo vai sair - nem ele conseguiria ignorar os dois falando alto sobre qualquer coisa idiota acontecida em qualquer espigão da avenida paulista, então todos ouvem com atenção)

- porque se eu soubesse, nossa.
- lógico.
- mas todo o problema é que eu não sabia quem era aquela, vejo a mulher, o maior tipão, vindo pelo corredor: assobio, aí ela vira e me olha assim e fala - oi andré - nooossa. eu fui andando... olho lá no elevador e vejo o rogério tirando sarro da minha cara. sorte que deu tudo certo.
- pelo menos você está, vamos dizer assim, assalariado.
- antes tarde do que nunca. mas ela é legal. paula acho que é o nome dela.
- é a mesma de quando o rogério trabalhou?
- é nova, mas acho que deve ser a mesma desde, sei lá, desde

(leva um tempo pra voltar ao normal depois que o trem cospe todo mundo na sé. acho que só pela estação da luz é que se recobra totalmente o fluxo anterior e se esquece dos indivíduos de cabelo descolorido e ternos).


posted by MARCO DUTRA 02:34
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Segunda-feira, Abril 14, 2003

só pra avisar que eu não morri nem nada, apesar de ter passado perto.


posted by MARCO DUTRA 04:33
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Quarta-feira, Abril 09, 2003

escrevo sempre - com grafite 0.5 - nas páginas da agenda correspondentes a dias que já se foram porque nunca sei o que precisarei escrever nos dias futuros. o fato é que quase nunca escrevo nada, mal uso a agenda e poderia muito bem não ter uma se minha consciência permitisse. nada de útil está escrito em qualquer das minhas agendas. descobri em 1995 que é muito fácil escrever poesia moderna. estava no primeiro colegial e escrevi algo como "lá fora os pombos comem os restos deixados pelas crianças no recreio / o pátio está vazio" no caderno de algum colega. escrevi para tirar sarro do osvald de andrade - rimos um pouco na hora -, por isso meu rosto não se iluminou. acho que meu rosto não tinha o costume de se iluminar - como hoje não o tem, pra falar a verdade, exceto em uma ou outra rara ocasião de espectador. percebi em 1995 que não era preciso rimar as palavras. a literatura moderna permitia isso. na verdade, permitia até que se rimasse a palavra com a própria palavra, que coisa idiota. notei, em 1995, quando pombos comiam do lado de fora da nada bucólica escola católica que me arrastou por mais de uma década, que mesmo o que eu estava pensando, se escrito com o devido espaçamento, poderia se transformar em poesia. fico triste: hoje não posso ler o que escrevi naquele dia, e gosto muito de osvald de andrade.


posted by MARCO DUTRA 13:39
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Terça-feira, Abril 08, 2003

na sexta eu fiquei doente de febre alta
que ninguém acreditava no início

(pra falar da sexta
e não do casal medo dessa vez)

mas piorou depois quando eu tava na oficina de teatro, aí acreditaram
e eu fui e dormi debaixo de um monte de edredons e cuidaram de mim com remédios
que eram magnopyrol e amor
magnopyrol é dipirona sódica
amor eu não sei o que é
(eu adoro remédios, principalmente os que você vê que fazem efeito rápido
que nem o amor e a dipirona sódica)
acordei várias vezes até acordar de vez
aí fui ver a entrega do prêmio que a mãe do meu amigo ganhou

porque ela tinha tirado umas fotos fazia tempo e o tema do concurso era a mulher mas ela conseguiu encaixar as fotos antigas no tema e ganhou o segundo lugar nas fotos sem cor e o segundo e o terceiro nas fotos com cor
e os prêmios acabou que eram duas câmeras pequeninhas e quatro passaportes pro playcenter
(não se sabe ainda quem é que vai pro playcenter)
o fato é que terminou logo a cerimônia lá na biblioteca mário de andrade - no centro - e tinha um bebê
correndo pelo saguão
eu tive medo que ele despencasse pelo vão central
(a cerimônia foi no primeiro andar, que é bem alto lá naquela biblioteca)
e aí teria sangue e choro pra todo lado
acabou que foram todos eles almoçar -
a mãe, o meu amigo, a irmã dele e o filho pequeno dela, e mais uns amigos da mãe
e eu resolvi ficar porque eles iam comer churrasco e eu estava enjoado do estômago
desde de manhã, na verdade
(no texto você esquece e as coisas entram fora de ordem)

aí eu fui tentar comprar um cd que não convém dizer qual é e ele tinha esgotado
aí eu comprei no lugar um livro que não convém dizer qual é e
fui pra uma praça e lá tinha gente
e não convém dizer quem eram
porque se dissesse aqui quem eram, se desse nome aos bois
aí sim seria má literatura
do jeito que está é só um poema
e ninguém sabe se é verdade
mas é

nem precisa ser boa literatura
e na praça tinha gente e tinha amigos
e da praça a gente foi pra padaria, uma padaria que não convém dizer qual é
e fomos amigos rua acima e encontramos o amigo cuja mãe ganhou:

duas camerinhas e quatro passaportes pro playcenter
(agora ela já podia até saber quem é que ia
e quem não ia
quem não fosse talvez ficasse em casa a comer flocos de aveia)

e fomos amigos rua abaixo onde encontramos o fim do sábado

mas é que o sábado acabava mesmo bem mais tarde e eu nem sabia
no metrô eu fiquei triste demais porque o mundo que era aquele vagão
era pequeno
e eu queria era gritar e correr mesmo sabendo que isso só faria que eu desejasse
mais ainda correr e gritar
devo ter chorado
e as duas mulheres ao lado devem ter ficado olhando de beirada e pensado se alguém tinha morrido

- não morreu ninguém (claro que morreu, sempre tem alguém morrendo, mas ninguém meu)
- talvez escrevessem sobre mim em seus blogs mais à noite
- deve ser um episódio de pânico
- passou esse dia e não liguei pra uma amiga que é grande
não pensei isso tudo
porque na hora não pensava
a hora era só querer gritar e chorar e quebrar o vidro
o celular sem serviço e eu ainda na estação liberdade
sé são bento luz tiradentes e agora eu saio do túnel e o celular pega e eu ligo:
- eu precisava ligar pra alguém
a voz não sai direito nessas horas que são correr
- e liguei
e gritar
- venha pra minha casa pra me ser ombro
tietê

ligo pra casa e meu pai vai me buscar que eu estou doente e é tarde
e é claro que ele está bravo com razão
porque é tarde e eu estou doente, oras
e se quero correr e gritar que faça isso são
e chegando em casa às dezoito para a janta
(a vaneide, que mesmo aqui tem um nome, nem me tinha posto um prato no microondas
era sábado)

entrei e dei o pulinho costumeiro pra tocar o teto da garagem
como se isso e só isso pudesse garantir que estava vivo
e que - sim, doutor, ele ainda consegue tocar o teto da garagem
- vamos então cuidar dos outros doentes
que eles não tocam há muito os tetos de suas garagens

entrei e abracei meu irmão pequeno - o menor, já que são todos pequenos
mas os outros são maiores
fui para o meu quarto e lá fiquei
recebi do meu pai uma dose da dipirona sódica - a febre voltava devagarzinho
falei ao telefone com um amigo que me ajuda como um livro ajuda
e falei com o outro cuja mãe havia ganho:

duas câmeras inúteis e quatro passaportes pro playcenter
(ela devia estar dormindo há muito tempo e sonhando -
se é que sonha - com algo que não era o playcenter)

chegou então
em boa hora
aquele outro para quem eu tinha ligado e dito que viesse
e falamos de muita coisa, não de blogs nem de crianças que despencam pelo vão
e há sangue
falamos do que não convém falar
foi algo de bom e tenebroso como fantasmas
mas depois, já na cama, não chegava nenhum sono
e eu quis de novo correr e gritar
soube então que era patológico
dormi mesmo às seis, e dormi mal
acordei e era domingo

minha mãe fez pão doce e era quase a noite do domingo
já quase noite e as mitoses celulares estavam à todo vapor
o amigo do celular, o que dormira em casa, foi-se
meu psiquiatra estava em campinas:

- mas isso é a coisa mais normal do mundo!
nada melhor para se ouvir de um médico, exceto talvez
- é benigno
melhor ainda que
- eu te amo
segundo alguns bons e velhos filmes
mas receitou-me mesmo assim um remédio por telefone
porque ele deve saber que gosto de remédios
de modo que tomei a dipirona sódica e mais esse remédio além do remédio usual
aí chegou o amigo cuja mãe vai ao playcenter qualquer dia
foi comigo à farmácia, cantarolou
a noite estava bem fria
andar pela rua fria e escura, sem barulho, o guarda cochilando
isso foi fazendo bem
e fez mesmo
e dormi bem demais
amor e remédio
(nem sonhei)
a segunda-feira foi rápida e agradável ao lado do amigo e da amiga
que são todos pessoas de verdade que me cercam
e que aqui só não tem nome porque não convém
mas isso não convém dizer também
nem ter um blog convém
nem a mim

porque eles todos me fazem bem mesmo na vida que levo acordado e pra fora

já na que levo dormindo
na que levo pra dentro
eu tenho aí a dipirona sódica e o amor e a água de melissa e a vitamina c
tenho o anafranil cloridrato de clomipramina e o rivotril clonazepam
que eu podia engolir um por um até morrer
que tudo que eu ia sentir era um friozinho nas pernas

mas não me mato tão cedo


posted by MARCO DUTRA 04:31
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Sexta-feira, Abril 04, 2003

o sr. e a sra. medo estão escrevendo um livro de poemas. não raro, pedem ao filho alguma contribuição. o objetivo inicial, segundo eles, era o de criar e editar, por conta própria, um volume de PIADAS PARA LER AO VASO, o que incrementaria ainda mais o já bastante sofisticado sanitário de sua residência. o projeto, por causa de inúmeros fatores (entre eles uma súbita leptospirose que atacou a pequena criança medo - ela adora brincar em esgostos imundos), acabou tomando rumos imprevistos. estou cuidando da revisão dos poemas e posso adiantar que muitos deles são excelentes. ainda hoje colocarei um deles à disposição dos leitores costumeiros - certamente, com a devida autorização da família de poetas.


posted by MARCO DUTRA 13:42
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Quinta-feira, Abril 03, 2003

a temida quarta-feira:

1) vamos começar agradecendo ao bruce pelo comentário. how charming! devo dizer que havia percebido há algum tempo a óbvia superioridade da universidade de berkeley em relação ao campus sem esquilos de stanford. a questão gerou enorme polêmica no chá dessa quarta na casa de maggie - sim, ela está praticamente recuperada do envenenamento. recomendo a todos que visitem o site enviado por bruce e tomem notas. 2) sim, gabriel, era dessa andrea marquee que eu falava. ela é realmente maravilhosa. tenho o primeiro cd dela, se te interessar (ela já o tinha lançado antes de FAMA). 3) pretendo aproximar-me melhor de sinéad o´connor assim que uma alma caridosa que possua sua discografia se disponha a me emprestá-la. louis? 4) nota-se que o olho humano é um assunto interessante. talvez olhos em geral o sejam. 5) a sra. clara lobo está ameaçando a vida do autor deste blog apenas por ele ter oferecido um pouco de AMOR - just a little love - à sra. rojas. socorram-me.

o dossiê bresson se encerra - sem PICKPOCKET, que não pude ver. os dois últimos filmes são AU HASARD BALTHAZAR e O DINHEIRO. o primeiro acompanha a vida de um jumento e a de seus donos. é incrível como bresson coloca o jumento, galinhas, cães e outros animais no mesmo patamar dos próprios atores humanos. a dramaturgia não ajuda, porém, e o filme caminha para a latrina sem pudor. O DINHEIRO merece ser visto mais uma vez (estava com sono), mas adianto: pode ser que seja uma obra-prima. não tenho certeza ainda. mas pode ser. toda a ação é transferida para os detalhes do corpo: a mão empurra - as pernas se curvam - o torso cai. os atores estão neutros e ótimos. não há música. a trama é contada da forma mais simples. tudo o que bresson sempre tentou fazer deu certo em O DINHEIRO. a chacina no final do filme é uma cena absolutamente antológica. bresson o rodou em 82. morreu em 99, sem ter dirigido nenhum outro depois dele.

curiosamente, comecei hoje a ler ESTAÇÃO CARANDIRU. a princípio pouco empolgado, fui sendo absorvido pelos dias do presídio e logo estava lá dentro. a violência e a delinqüência podem ser encaradas de maneira original. vejam O DINHEIRO e leiam ESTAÇÃO CARANDIRU. e assistam, se estiverem dispostos, à adaptação para o cinema de hector babenco dia 11.

terminou a quarta-feira, mais um dia sem tempo.


posted by MARCO DUTRA 04:41
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Quarta-feira, Abril 02, 2003

hoje eu vi a andrea marquee cantar a música do caetano - não o veloso. SEM JEITO é o nome da música que ele fez pro curta dele lá da usp. ficou muito bonito. andrea é uma cantora maravilhosa, as pessoas precisam conhecê-la melhor. foi um dia cheio e não tive muito tempo pra pensar em qualquer coisa que não: há tempo, tempo é o que mais temos na vida. toda a vida cabe em um dia ou em uma hora. é possível deixar de amar e voltar a amar em um período de segundos, enquanto se está no banheiro no fim do dia ou quando se faz a barba numa manhã. num dia sem tempo como esse, só se pensa em opções. em quem deixar triste dessa vez. opções. eu escolho pisar nessa direção. é pra lá que eu vou. ou pra lá. quero fazer isso, não isso. quero comer e beber. dormir.

LANCELOTE DO LAGO é um mau bresson. AS DAMAS DO PARQUE DE BOULOGNE é um bresson ainda jovem e sem estilo, mas altamente competente. no elenco, a versão francesa de bette davis.

eu não olho com muita atenção para os meus olhos no espelho. começam a parecer órgãos. começo a parecer um corpo. e tudo o que é real se desmancha com facilidade. eu costumo saber que é apenas um desmanche provisório, mas a perda do chão, a imponderabilidade, a não-gravidade - tudo isso me mete medo, mesmo que por dois segundos.

e volto depois a andar pelas ruas, sem tempo.


posted by MARCO DUTRA 03:11
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